DOM RONALDY SCHNEIDER CARDEAL WOJTYŁA, FSJPII
Homilia – Memória de Santa Dulce dos Pobres
Meus Caríssimos! Hoje a nossa Igreja particular de São Salvador se reveste de festa e profunda emoção. O Senhor nos concede a graça de celebrarmos juntos dois momentos que, para mim, são inseparáveis: a memória de Santa Dulce dos Pobres, o “Anjo Bom” da Bahia, e o início do meu ministério como vosso Bispo Diocesano.
Ao pronunciar o nome de Santa Dulce, nossos corações se enchem de ternura. Quantas vidas foram tocadas, curadas e transformadas pela sua entrega silenciosa e perseverante! Ela foi um farol de esperança para os pobres, doentes e excluídos. Viveu o Evangelho com simplicidade e firmeza, unindo amor concreto e fidelidade à Igreja. Hoje, ao assumir este pastoreio, sinto-me chamado a seguir seus passos, sendo um pastor que não mede esforços para cuidar, proteger e amar o rebanho confiado por Deus.
O Evangelho proclamado neste dia nos fala sobre a correção fraterna (cf. Mt 18,15-20). Um ensinamento tão simples, mas ao mesmo tempo tão difícil de viver. Jesus nos convida a sermos irmãos verdadeiros, capazes de ajudar uns aos outros a permanecer no caminho da salvação. Corrigir não é criticar, julgar ou humilhar. Corrigir é amar ao ponto de não ser indiferente diante do erro do outro.
Santa Dulce compreendeu isso. Ela não fechava os olhos para as injustiças, mas também não condenava de forma dura. Seu método era o do Evangelho: proximidade, diálogo, escuta, mansidão. Ao corrigir, sempre buscava preservar a dignidade da pessoa. Lembro de suas palavras: “O importante é fazer o bem, não importa a quem.” A correção fraterna é exatamente isso, fazer o bem ao irmão, mesmo que custe esforço e paciência.
Jesus nos indica um caminho em etapas:
Primeiro passo: falar a sós com o irmão. É o diálogo honesto, “cara a cara”, sem rodeios, mas também sem agressividade. Muitas vezes preferimos falar sobre o outro em vez de falar com o outro. Mas a fofoca, o “disse-me-disse”, destrói comunidades. Corrigir exige coragem e delicadeza.
Segundo passo: se o irmão não escutar, levar uma ou duas testemunhas. Aqui não se trata de formar um “bloco contra” alguém, mas de buscar a verdade com imparcialidade, evitando julgamentos precipitados.
Terceiro passo: apresentar o caso à comunidade. Uma comunidade cristã autêntica deve agir segundo o coração de Cristo, discernindo à luz do Evangelho e não se deixando levar por opiniões voláteis ou pressões sociais.
E se ainda assim não houver abertura para a conversão? Então resta o último recurso: a entrega à misericórdia de Deus. É Ele quem toca os corações. É Ele quem transforma. Santa Dulce acreditava nisso profundamente. Para ela, ninguém estava perdido; apenas precisava ser amado de um jeito novo.
Meus irmãos, esta mensagem do Evangelho é um chamado também para o ministério que hoje inicio. Ser Bispo é, antes de tudo, ser servidor da comunhão, guardião da unidade e testemunha da misericórdia. E para isso é preciso corrigir quando necessário, mas sempre com amor; orientar, mas sempre com paciência; guiar, mas sempre junto do povo.
A Diocese de São Salvador tem uma história rica de fé e missão. É a primeira diocese do Brasil, berço do cristianismo nesta terra. Aqui, a semente do Evangelho foi lançada há quase cinco séculos e continua germinando nos corações. Hoje, peço a Deus a graça de honrar essa herança e de conduzir esta Igreja particular com a ternura do Bom Pastor e a audácia missionária que Santa Dulce nos inspira.
Quero que a nossa Igreja seja, como ela foi, uma casa aberta para todos: para o pobre e o rico, para o que está firme na fé e para o que está buscando sentido, para o que está próximo e para o que está distante. Aqui, ninguém deve se sentir excluído, porque o amor de Cristo é para todos.
Termino pedindo que rezem por mim, para que eu seja, segundo o coração de Jesus, um pastor que conhece e ama as suas ovelhas. Que Santa Dulce interceda por nós, para que sejamos uma Diocese que corrige com amor, serve com humildade e anuncia com coragem. E que, ao fim, possamos ouvir juntos do Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino que vos foi preparado.”
