DOM RONALDY SCHNEIDER CARDEAL WOJTYŁA, FSJPII
Homilia – 15º Domingo do Tempo Comum (Ano C)
Caríssimos em Cristo,
Hoje a Palavra de Deus nos oferece uma das parábolas mais conhecidas e mais exigentes do Evangelho: a parábola do Bom Samaritano. Uma história que mexe com nossas certezas religiosas, com nossos hábitos espirituais e até mesmo com a maneira como olhamos os que nos cercam.
Um doutor da Lei, versado nas Escrituras, se aproxima de Jesus com uma pergunta que parece sincera: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Mas São Lucas nos revela que essa pergunta vinha acompanhada de más intenções: ele queria pôr Jesus à prova. Não buscava aprender, mas testar. E como sempre faz com quem tenta manipulá-lo, Jesus devolve a pergunta: “O que está escrito na Lei? Como lês?”
A resposta do doutor é perfeita: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração… e ao teu próximo como a ti mesmo.” Está tudo aí: amar a Deus e amar o próximo. Mas o evangelho nos mostra que, diante da clareza de Jesus, aquele homem tenta se justificar, tenta escapar pela tangente. E faz outra pergunta: “E quem é o meu próximo?”
Essa pergunta é decisiva. Porque o doutor da Lei quer limitar o amor. Ele quer saber quem merece ser amado, quem entra na categoria de “próximo”. Jesus, porém, não responde com uma definição, mas com uma história, uma parábola que revela toda a profundidade do amor cristão. E nos surpreende, invertendo as expectativas.
Caríssimos, o centro da parábola não é o homem caído, mas os que passam por ele. Jesus não pergunta: “quem é o próximo do samaritano?”, mas sim: “Qual dos três foi o próximo do homem ferido?”
Aqui está a chave da parábola. Jesus não nos convida a identificar quem é digno do nosso amor. Ele nos convida a tornar-nos próximos. O amor cristão não é passivo. Não espera que alguém nos pareça familiar, simpático, próximo por raça, religião ou afinidade. O amor cristão vai ao encontro. O próximo não é aquele que se parece comigo, mas aquele a quem eu escolho me aproximar.
E Jesus vai além. Ele faz do herói da parábola não um sacerdote, nem um levita — homens da religião —, mas um samaritano, considerado herege e inimigo pelos judeus. Um escândalo! Com isso, o Senhor destrói qualquer pretensão de que o amor possa ser reduzido a fronteiras religiosas, étnicas ou morais. O amor verdadeiro não pergunta de onde o outro veio, mas onde está ferido.
Muitos Santos Padres da Igreja viram nesta história uma imagem da salvação: o homem espancado representa a humanidade ferida pelo pecado, caída à beira do caminho da vida. O samaritano é o próprio Cristo, que, movido de compaixão, se aproxima, trata as feridas, carrega em seu próprio animal e leva à hospedaria. Ele paga o preço da nossa recuperação, e promete voltar.
Cristo se fez nosso próximo quando nada tínhamos a oferecer. Ele não passou ao largo como o sacerdote ou o levita. Ele se rebaixou, se inclinou, se sujou com o pó das nossas quedas. Como diz São Paulo: “Quando ainda éramos inimigos, Deus nos reconciliou consigo por meio da morte de seu Filho” (Rm 5,10).
Diante disso, a parábola nos impõe uma resposta. Não podemos sair dessa liturgia apenas admirando o Bom Samaritano. Precisamos imitá-lo.
Somos chamados a fazer pelos outros o que Cristo fez por nós:
– aproximar-nos dos que estão feridos,
– perder tempo, gastar recursos, dar o coração,
– curar feridas físicas, emocionais, espirituais.
O amor cristão não é emoção, é ato concreto. E como dizia Santo Agostinho, o amor é como um peso: arrasta a alma. Quem ama não consegue ser indiferente. E se nós passamos por este mundo sem nos aproximar dos que sofrem, é porque ainda não fomos profundamente tocados por Cristo.
Talvez o nosso maior desafio hoje não seja saber quem é o próximo, mas vencer o nosso coração endurecido, nossa pressa, nosso medo de nos envolver, nossa frieza. Vivemos, muitas vezes, nesse “deserto populoso” que chamam de mundo moderno: cercados por gente, mas fechados em nós mesmos. E o Senhor nos chama a romper essa bolha: “Vai, e faze tu também o mesmo.”
Caríssimos,
se fomos encontrados e curados por Cristo, tornemo-nos curadores do próximo. Se o amor de Deus realmente está em nós, então ele nos impulsionará a nos aproximar de todos, sem medir merecimento.
Que a Eucaristia virtual que celebramos hoje nos transforme por dentro. Que o Corpo de Cristo, ferido por nós, nos dê força para curar os que estão caídos à nossa beira. E que Maria, que se aproximou de nós no silêncio da fé, nos ensine também a nos fazer próximos de todos. Que assim seja.
Dom Ronaldy Schneider Cardeal Wojtyła, FSJPII
